Entramos num monomotor no Aeroporto de Entebbe, em Uganda (o mesmo do filme O Ultimo Rei da Escócia, lembra?). O tempo estava nublado, garoava, e seria a primeira vez que entraríamos no Sudão do Sul. Logo ao decolar, o pequeno avião sobrevoou parte do belo Lago Vitória, o maior lago africano, uma das nascentes do grande e famoso Rio Nilo.

O que não imaginava é que levaria tempo para ver tanta água na minha frente novamente.

De seu valor, aprendemos desde cedo, ainda que por causa de sua abundância, negligenciemos sua profunda metáfora de vida.

O primeiro sobrevoo sobre as montanhas Lopit parecem esconder algo. A visão ainda é verde, com tons que vão se tornando amarelados. Mas do chão, ouvia-se o som abafado da falta de chuva. A terra pedia trégua, rouca e rachada.

Dos doze meses, quatro são de chuva. Assim havíamos ouvido sobre nossa nova casa. A verdade é que não existem meses de chuva, mas meses em que há a possibilidade dela agraciar a terra.

Não à toa, uma das principais funções em Lopit é justamente a do Fazedor de Chuva. Esta pessoa, com habilidades especiais, sabe ler os sinais e – ainda me debato para compreender qual o entendimento deles sobre isso – quem sabe trazer ou não a água bendita. O Fazedor de Chuva tem certo status. Pessoas trabalham para ele, levam presentes, garantem que seu ânimo esteja bem. Mas a falta de chuva por um longo período pode fazer a situação mudar de vez. Durante nosso tempo em Lopit soubemos de mais de um Fazedor de Chuva que foi morto por não ‘trazer a chuva’.

O ritmo da vida é determinado pela água.

A primeira vez que choveu, vizinhas entraram pelo nosso portão e começaram a dançar e gritar. Há tempos esperavam por aqueles preciosos pingos.

Basta uma chuva para que o verde vivo brote novamente na monocromática cena diária. A chuva não dura mais que uma hora. A montanha funciona como uma calha, forçando a água a permanecer em seu caminho, até se esparramar na planície.

O rio, antes imaginário aqueles que rotineiramente o atravessavam, nasce com força e rapidez. Não durará mais do que algumas horas.

Nas poças que ali permanecerão por alguns dias, às sombras das árvores, a tribo se banhará ao fim-de-tarde.

Em Lopit a água traz o verde, traz o sorriso, traz a brincadeira, traz a comida, traz a dança, enfim, traz a vida, não como metáfora, mas como esperança renovada e vivida.