O Bolinho

Sou grato a Deus pelo ano de 2016. Pelas oportunidades de clicar e, na rua, aprender, aprender e aprender mais.

Nada se compara com o que aconteceu em Lopit. Isso não é nenhum mistério pra mim. Em Lopit fotografei amigos, vizinhos e pessoas que estavam me ensinando a ver a vida de outra maneira. Não foram esbarrões, segundos de ação ou correria. Foi comida compartilhada, choro e dor compartilhados e ajuda mútua.

Na rua tenho aprendido a olhar a luz, a me aproximar das pessoas, ainda sabendo que sem tempo para desenvolver qualquer relacionamento. Tenho aprendido a dizer sim para pautas das quais nunca imaginei que saberia fotografar.

Minha muita timidez, as vezes mal interpretada, não me impede de saber e dizer que sei pouco, muito pouco.

As vezes, como hoje, volto muito insatisfeito com o resultado. Mas sempre saio tentando fazer o meu melhor. Volto pra casa e revejo tudo, e continuo tentando aprender.

Foi nas ruas, em 2016, que no meio do turbilhão político de nosso país e acompanhando presencialmente praticamente todas as manifestações, vi que a história não pode ser contada APENAS pelo que se noticia. Fui pra rua pra encontrar gente, rostos, gritos e choros. E isso mudou totalmente a minha percepção dos fatos.

Fui pra rua sem ver cor e bandeira, mas extremamente curioso pra entender o que faz o dia-a-dia da pessoa comum. Quais são seus sonhos, em que estão sofrendo e sendo calados?

De casa, a foto e a notícia ilustram a minha já formada ideologia. Na rua, o olhar e o toque do outro a questionam. Ali, aprendo a viver a cada clique.

E ao registrar um pouco da história de nosso país em 2016, uma foto sempre voltava a minha memória.

Foi a minha primeira saída fotográfica, a cerca de 15 anos atrás. Com uma câmera de filme e o flash embutido da máquina, saí para cobrir invasões de sem-tetos na grande São Paulo. Numa delas, na Rua Conde Prates, me deparei com uma senhora sentada ao chão do prédio escuro e sujo que havia acabado de ser invadido. Ela carregava apenas uma sacola, daquelas feitas de plástico entrelaçado, onde parecia caber todos os seus pertences, ou ao menos, aqueles necessários para aquela situação.

Ao me ver e perguntar meu nome, ela enfiou a mão em sua sacola e tirou um bolinho para mim. Desembrulhado, todo amassado no meio das coisas. E disse: - Coma, meu filho! Coma!

Jamais me esqueci dessa situação.

Foram inúmeras as vezes que este bolinho me alimentou em 2016.