Horizonte

Os primeiros raios passavam pelas frestas do mal acabado telhado de nossa cabana, em Ohilang. Aquele laranja refletia no telhado de alumínio, cheio de imperfeições, criando estranhas figuras nas paredes de barro.

Os primeiros segundos eram rotineiramente confusos: "Onde estou?", "Que lugar é este?".

Aos poucos, o barulho das mulheres fazendo a farinha, o gado caminhando em volta de casa, o choro cantado das crianças, todas estas pequenas particularidades me avisavam que eu estava, sim, em casa.

Com cuidado para não acordar minha esposa, levantava o mosquiteiro que fazia de nossa cama uma espécie de cabana transparente, abria a porta de casa e, subindo numa grande pedra que havia bem em frente a casa, ficava por alguns minutos contemplando aquele horizonte donde o Sol nascia.

Desde a primeira vez que vi o horizonte a partir de nossa casa, me apaixonei. Ele nascia, a esquerda, liso e de repente, a medida que os olhos caminhavam para a direita, surgia uma cadeia de montanhas bem desenhada. A visão sempre me deu a impressão de um eletrocardiograma... A princípio não muito poético, eu sei. Mas o sentido era da morte para a vida. A imobilidade na direção dos pequenos pulsos... 

Tudo isso virou minha rotina diária. Não houve um dia sequer que não percorri cada uma dessas ações. Contemplar esta maravilha, logo ao início do dia, trouxe-me paz, segurança e a lembrança de que estava ali procurando por vida.

Estas montanhas que nasciam ao horizonte era dos Toposa. Para os Lopit, inimigos; para mim, mais uma lembrança de que a luz do Sol e o Horizonte servem de contemplação a todos que estão sensíveis ao olhar.

 

Boya Mountains view from Lopit Road, South Sudan, 2015.