German Lorca, um encontro

Quem me conhece sabe que não gosto muito desse ‘culto a personalidade’. Ao mesmo tempo, quer me ver chorar é só me apresentar a alguma história que envolve ‘honra’. Honra e culto a personalidade não tem nada em comum, embora precise certa perspicácia para entender onde ambas se colocam algumas vezes.

Pois bem, havia visitado a exposição sobre o Foto Cine Clube Bandeirantes que aconteceu no MASP. Gosto muito de ir a exposições fotográficas. Elas estão recheadas de história. É comum ver gente olhando para fotos de 50, 60, 80 anos e achar aquilo ‘fácil’. Acho isso um desprezo. Um desrespeito. O que me encanta, ao olhar uma exposição como esta, é ver como o fotógrafo dialogou com o seu tempo. Como ousou inovar. O que isso lhe custou. Para deixar pegadas na história é preciso coragem. 

É por isso também que os velhinhos me encantam... Vejo aqueles cabelos brancos e me aproximo com respeito. Quando ranzinzas, me pergunto sobre as cicatrizes da vida; quando sorridentes, pergunto-me como encontraram este tesouro de vida em meio as cicatrizes da vida.

O encerramento da exposição ia contar com a presença de German Lorca e, na verdade, foi isso que me levou lá. Queria ter a oportunidade de ouvir algo ‘dos grandes’. Não grande apenas no nome, porque isso é por demais confuso. Mas grande porque ao olhar suas fotos, me comovo.

Logo na entrada do teatro minha esposa me pergunta se Lorca estava ali. Olho a minha volta e olho um senhor de tênis, camisa polo e calça social. E digo: olha ele ali!

Compro o livro e peço que autografe a página de uma de suas fotos. Com uma voz baixa e com certa dificuldade para ouvir, pergunta meu nome. Logo em seguida, pergunta: “Você é fotógrafo?”, “O que fotografa?”. Quase não consigo responder...

Minutos depois, eu já sentado no auditório, vejo Lorca se aproximar do palco. As escadas, sem corrimão, são um desafio as suas pernas. A dama responsável pela apresentação, ao seu lado, não percebe sua dificuldade, se incomodando com o súbito agarrar de seus braços por este senhor de mais de 90 anos.

As falas começam pela pesquisadora e pela curadora da exposição. Quantas palavras difíceis. Há um vocabulário que aparentemente divide aqueles que sabem daqueles que, pelo vocabulário, não sabem. Fico impressionado com a opressão que o discurso pode causar. Frases longas, com palavras terminadas em –ades. O indivíduo que está ao meu lado, com caderninho na mão, não resiste e dorme. E eu cá, apesar de apreciar o estudo, leitura e conhecimento, me pergunto se não é possível olhar para a vida e para a foto com menos firulas.

A palavra é passada por ultimo a German Lorca. Com um sorriso de criança pega o microfone e dali a vida começa a fluir. Fala sobre como começou a fotografar. Fala com simplicidade, como se estivesse lendo um gibi. Não era possível ouví-lo sem que o mesmo sorriso fosse desenhado nos rostos atentos.

Começou sua carreira como amador, seja lá o que isso signifique. De profissão, era um contador. Até que um dia alguém lhe pede para tirar foto de uma indústria, ou coisa assim. Ele diz para si mesmo: mas não sei se sei fazer isso. Aceitou o desafio. Quando ganhou mais em uma semana com a fotografia do que ganhava em um mês com a contabilidade, resolveu mudar e assumir de vez a fotografia.

Mas usa de suas tarefas para também ter oportunidades de fotografar o que gosta. “Porque o olho jamais para de olhar”. E achei essa frase magnífica.

Quando perguntado sobre o analógico e o digital - quase que uma oportunidade de, ao olhar um senhor já de idade, querer um apoio ao discurso anti-tecnológico - sua resposta parece surpreender: “Foto é foto. Se a foto é boa, é bonita, não importa se analógica ou digital”.

Perguntam então se continua fotografando. Ele diz que as pernas já não o ajudam muito. Mas ficou adoecido e, preso em sua casa, começou a perceber as sombras dos pés das mesas, cadeiras, e começou a fotografá-las. “Já até vendi algumas delas”, diz ele.

A palestra termina com Lorca dizendo que o MoMa está selecionando algumas de suas fotos e que ele espera que elas sejam aceitas.

O pequeno auditório o aplaude com paixão. No meu aplauso, uma vontade de honrá-lo e um esforço para alargar ainda mais seu sorriso.

Saio do MASP com o coração leve. Acabava de presenciar alguém que não perdeu a vida ao clica-la, mas pareceu ter ilustrado a vida com simplicidade.

Obrigado, German.