A Beleza e o Sofrimento

“No seu ensaio sobre O nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música, Nietzsche observou que os gregos, por oposição aos cristãos, levavam a tragédia a sério. Tragédia era tragédia. Não existia para eles, como existia para os cristãos, um céu onde a tragédia seria transformada em comédia. Ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo. A resposta que encontrou foi a mesma da ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza. A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta. Mas ela não cria. Não produz pérolas. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer. Esses são os artistas. Beethoven – como é possível que um homem completamente surdo, no fim da vida, tenha produzido uma obra que canta a alegria? Van Gogh, Cecília Meireles, Fernando Pessoa...”  [Rubem Alves. Ostra Feliz Não Faz Pérola]

 

Foi no Sudão do Sul que compreendi melhor as palavras de Rubem Alves. Aqui a fotografia me resgatou, embora tente me convencer que eu a tenha resgatado. No meio do sofrimento, do desespero, a busca por beleza tornou-se tão necessária como a água.
Lembro a primeira vez que fui ao Brasil após um tempo de trabalho no Sudão do Sul, o MASP tornou-se meu refúgio. Fiquei no Brasil por três semanas. Visitei o museu três vezes.
Acho, sim, alienante uma esperança que seja apenas futura. Também descobri isso com mais profundidade por aqui. Em meio à miséria e desgraça humana, a sede pela vida é presente e urgente.
A fotografia ajuda-me a escrever histórias de vida com registros de luz.