Memórias nas paredes da vida

Vivi parte da minha infância numa casinha simples no bairro de Água Rasa, em São Paulo. Um sobradinho desbotado, com um portãozinho baixo, uma frente que mal cabia a Combi do meu pai e alguns degraus para entrar na pequena sala. Ali uma escada de madeira acompanhava o primeiro canto. Embaixo da escada o piano. Na quina oposta a porta de entrada, a porta para cozinha e banheiro. Na outra quina, a única que restou nesse pequeno recinto, um aquário com Acarás, encurralado pelo sofás, que eram caixas de madeira com grandes almofadas.

Memórias...

Lembro que a campainha tocava constantemente. Coisas que nossa vida digital não pode compreender.  Se não era a campainha, era a buzina do carro de doce – bomba de chocolate – ou o bater frenético do metal na madeira do vendedor de biju. As portas se abriam para vendedores de Enciclopédia Barsa, dos mais diversos livros e para a fotografia.

Eu tinha cerca de 5 anos de idade. Não me lembro do fotografo ou de como parecia sua máquina. Lembro-me de sentar no sofá com minhas irmãs e ser rearranjado. Aquele registro, oferecido por um profissional da memória e da história, viria em forma impressa e enquadrada tempos depois. O quadro, agora parte daquela casa, tornou-se parte da infância, do ser família,  de quem eu era.

Apesar da realidade contar uma história diferente, aquela viria a ser minha ultima casa. Moramos em muitos outros lugares. Mas nelas o quadro não estava pendurado nas paredes da minha memória.

Moramos na casa dos outros, onde a campainha jamais quis fazer um retrato do que vivíamos. Moramos onde conseguimos. Mudamos... Mudaram as campainhas e quem as tocavam. As fotos agora já queriam preencher lugares, mas não onde morávamos. De certa maneira a gratuidade da imagem trouxe a incapacidade de se construir memórias duradouras.

A ultima vez que vi esta foto ela estava rasgada e pisoteada no chão do quartinho dos fundos de um dos lugares que me alojei. Nossa cachorra labradora havia entrado e destruído uma porção de coisas por ali. Era a primeira casa que vivia após a separação de meus pais. Ali meu pai não estava, assim como minha irmã mais velha que já não vivia com a gente há anos. A foto que ilustrara a vida da casa agora tentava se adaptar a nova realidade.

Dentro de mim a campainha ainda toca. O convite sempre aberto ao maravilhoso trabalho do retratista, um admirador da vida e das memórias.

Memórias...