Do selfie ao self: fotografando com história e paixão

Tenho ouvido aqui e ali que é preciso fotografar com o que se é. Isso pode até parecer óbvio, mas não é. Viver nossas vocações como fruto do que somos e não apenas da necessidade de sobrevivência parece ser algo cada vez mais raro.

Sinto que ao trazer este pensamento para a foto é considera-la mais que um meio de ganhar a vida. É refletir no processo de forma sensível, pra não dizer artístico.

Pensar na minha foto é pensar no que sou. Pensar na minha formação? Sim, também. Perguntam onde está musicoterapia, antropologia e teologia na minha vida. Digo: estão nas minhas fotos.

Mas tais questões estão para além das formações e essas milhares de estruturas e compartimentos colocados pela nossa vida moderna onde insistimos em arranjar significados limitados, trilhos específicos para o que fazemos na vida.

Fotografia para mim é um estado de ser no mundo. É a tradução, o meio que encontro para compartilhar o que apreendo e que de alguma maneira conecta com quem sou: minhas paixões, crenças, dores e esperanças.

Subjetividade!

Vejo essas conexões em muitas biografias que leio. Ansel Adams, por exemplo, queria ser músico. Aos 24 anos de idade ainda estava lutando com seu sonho de ser um pianista de concerto. Chegou a dar aulas de piano e, ao perceber que a luta era maior que o talento, culpou sua genética por ter mãos tão pequenas para executar seu instrumento. O hobby da fotografia, tão aparente em seu lugar sagrado, Yosemite, ganhou proeminência, mas a música jamais saiu de sua vida: “a disciplina da música deu a ele uma forte ideia de estrutura, ordem e propósito. No estudo da música ele encontrou a si mesmo”[1].

O publico admira as fotos de Sebastião Salgado – e sou um deles – mas não é surpresa ler sua biografia e ver sua prévia formação em economia[2]. Mais do que isso, seu engajamento político, sua vida como ‘exilado’ na França e tantos outros traçados de sua história que transparecem em suas fotos para um olhar curioso e respeitoso.

A dor e a beleza das fotos de Salgado redirecionaram a carreira de Lyndsay Addario. Ao entrar numa exposição do fotógrafo ela se sentiu tão profundamente tocada pelas imagens que decidiu se dedicar ao fotojornalismo e fotografia documental.

“Até entrar naquela exposição eu não sabia exatamente o que eu gostaria de ser. Eu não havia pensado em fotografia como arte E jornalismo. (...) Eu sabia que queria contar histórias das pessoas através das fotos; fazer justiça à sua humanidade, como Salgado havia feito. (...) Eu duvidava que era capaz de capturar tamanha dor e beleza num único enquadramento (...) Eu caminhei pela exposição e chorei”[3].

A pergunta que Addario fez a si mesma naquela exposição é a mesma que vem ao meu coração, vez após vez: “como ele havia captado a dignidade dos seus sujeitos?”. Paixões, lutas e sentimentos que dão direção ao que fazemos no mundo.

Após anos vivendo nas minhas aproximações, tentativas e distanciamentos com a música, foi a exposição de Escher que me arrancou as lágrimas. Aquilo havia de significar algo para mim.

Me identifico com essas histórias. Com caminhos que poderiam ter acontecido, mas não aconteceram. No entanto não o deixam de ser pois formam o que sou.

Mais do que agradar a outros quero que minhas fotos sejam expressão do que sou. Minha paixão pela vida, as histórias de injustiça que fazem meu coração sofrer.

Sei que todo meu esforço é para que a minha foto represente meu ser no mundo. É este que captura o mundo de maneira única.

Única porque ninguém possui uma história como a minha...

 

[1] Group f.64. Mary Street Alinder, pos. 1239. Kindle Edition

[2] Da minha terra à Terra. Sebastião Salgado e Isabelle Francq. Kobo Edition

[3] It’s What I Do: a photographer’s life of love and war. Lyndsey Addario, pos. 439. Kindle Edition