Não disparou

Olho a minha volta e o tempo todo me pergunto quantas fotografias poderiam ser tiradas. Uma espécie de ‘caçador da imagem perfeita’. Ao mesmo tempo, diversas são as vezes onde o melhor é guardar o clique.

 Gosto dos questionamentos que a fotografia traz ...

 Lembro de ter ficado profundamente tocado quando soube da história por trás da foto de Kevin Carter, ao assistir o instigante filme Bang-Bang Club (Este filme meio que me alimenta de tempos em tempos). Aquela foto de um urubu a espreita de uma criança raquítica, clicada no Sudão e ganhadora do prêmio Pulitzer de 1994. Os questionamentos sobre sua intervenção ou não naquela cena foram pesadas demais para ele. Não é interessante esse questionamento vir de uma mídia que se beneficiou da fotografia? Não teria sido a fotografia uma intervenção?

 Gosto, sim, dos questionamento que a fotografia traz com ela.

 Algumas cenas vêm a minha mente. As vezes, transportando gente para a clínica mais próxima vivo situações que me dariam belas imagens. Momentos de tensão, as dificuldades para se conseguir ajuda... Realidades duras que eu gostaria que virassem histórias também para outros olhos. Mas ainda não senti que o devia.

 Outras vezes as cenas, as imagens são tão absurdamente sublimes que parece que meu clique faria esta mesma cena perder seu valor. Não é o egoísmo de vivê-las sozinho, mas a fuga da banalização da imagem e da experiência, cuidado que entendo ser de extrema importância no hoje que vivemos.

Outras vezes a foto não sai por instinto de autoproteção.  E tenho uma para contar aqui:

 Certa vez estava caminhando com meu amigo na pista de pouso de Ohilang, Sudão do Sul. A pista de pouso é no meio da mata, mede 700m e está ao pé da montanha. De tempos em tempos precisamos conferir a altura da grama, se as pessoas plantaram alguma coisa no meio da pista, coisas assim. Quase sempre estou com uma câmera pendurada no meu ombro, num case. Não foi diferente neste dia. Estava atento, querendo conseguir uma boa imagem de uma alguma situação – afinal, parece que na África, literalmente, tudo pode acontecer. Foi quando avistei um homem saindo da mata cerca de 50m à nossa frente. Estava com uma AK-47 pendurada em seu ombro, o que não é incomum por aqui. Andou toda a largura da pista até a margem oposta e tomou a nossa direção. Como que por instinto, rapidamente abri o feixe do case para pegar a câmera. Ao fazer este movimento, percebo que um outro homem está também saindo da mata, mas exatamente na nossa direção. Ele também está armado. Tive um pressentimento de que não devia apontar a câmera para eles. Aguardo um pouco até chegar mais perto. Ao cruzar com um dos indivíduos tento um ‘ola’ na língua local, que acaba não sendo recebido com muita simpatia. Meu amigo, com muito mais experiência nas redondezas, comenta que a situação não é parece ser normal. Caminham para uma direção oposta da Vila, não estão cuidando de vacas e não estão indo para nenhuma plantação – todas situações onde seria normal portar as armas. Seriam ladrões de vacas? Estariam tentando uma revanche com algum antigo caso nesta comunidade? – também situações nada incomuns. No final, guardar a câmera soou como guardar a vida. Continuamos caminhando. Olhamos para eles algumas vezes a medida que caminhávamos na direção oposta e nos afastávamos, esperando apenas que aquelas armas não estivessem apontadas para nós.

Não apontei a câmera. Eles não apontaram as armas. Naquele dia fomos todos para casa sem revelar nossas intenções.

  Te convido a compartilhar alguma situação em que ‘a foto não saiu’.

 Este post foi inspirado pela leitura do livro Photographs Not Taken, organizado por Will Steacy. Uma série de diferentes situações onde, apesar da possibilidade, a foto não foi tirada. Vale a pena a leitura.