Retratos do Eu-Outro

'But Ansel, the camera cannot express the human soul', his mother wailed when she learnt of his defection. 'But Mother, perhaps the photographer can', he replied. [Ansel Adams, Group f.64]  

"A memória nos chega de fora. Ela vem do Outro." [Leonidas Donskis]

 

 

Amo retratos!

E não acho uma coisa fácil fazer um retrato. O que se quer é muito mais do que uma simples imagem daquela pessoa. Queremos sempre trazer a pessoa para a foto.

Amo os retratos do Alécio de Andrade. É uma simplicidade e, ao mesmo tempo, uma profundidade difíceis de observar hoje.

(Aliás, referência é uma coisa muito interessante. Um dos livros de fotos em contexto africano que mais gosto é do Don McCullin. Fotografias extremamente “simples”.  Mas isso é papo pra outra hora).

Foi no alto das montanhas Lopit que pela primeira vez li “A Câmara Clara”, do Barthes, e me tocou profundamente a maneira como ele falou das fotos de sua mãe. A maneira como ele olhava as fotos e, apesar de ter ali a imagem da mãe, a fotografia não conseguia realmente ‘retratar’ sua mãe. Não era ela, ali. Procurando, foi em apenas uma imagem dela que pode identifica-la. (Foto esta que não foi compartilhada no livro. É dele. Algo a se pensar nos dias em que vivemos).

Seus escritos inspiram debates até hoje. Mas lendo aquele livro, chorei a distância. A fotografia voltou a minha vida quando eu já estava na África, distante de toda a minha família, e senti uma dor de não ter um retrato dos membros da minha família ali comigo. Minha mãe, meu pai, minhas irmãs, minha sobrinha que acabara de nascer... Uma imagem na qual eu pudesse vê-los e, com alguma ‘sorte’, pudesse trazê-los para perto de mim.

Mas toda esta questão do retrato, dele ser ou não ser uma imagem ‘real’ da pessoa retratada, trouxe uma série de questionamentos e ‘viagens’ a minha cabeça. Isso porque estava vivendo num lugar onde a fotografia não estava presente. Não que eles não conhecessem a foto. Já viram, alguns poucos tinham, pois haviam viajado para outros lugares, países. Mas a fotografia não faz parte da realidade de Ohilang.

(De novo algo difícil de imaginarmos. Ainda existem tribos. Ainda existem pessoas que vivem no meio do nada, sem celular, energia elétrica. Pessoas que lutam pra comer porque a comida vem do plantar das próprias mãos. Mesmo conhecendo a fotografia de forma distante, as questões econômicas que os cercam tornam a fotografia ainda mais distante, ainda mais pensando numa fotografia deles. Muitos se acham ‘irrelevantes’ para que sejam o sujeito da foto)

E foi esse primeiro encontro com a própria foto, pela primeira vez deles, que trouxe experiências fantásticas. A maioria das fotos que dei em Ohilang foi para mulheres e crianças, pois elas são uma ‘subclasse’ de um contexto já bastante opressor. Queria que elas se sentissem valorizadas.

Além do sorriso e da gargalhada, uma das melhores reações foi observar que eles falavam com a foto. Saíam pela tribo, mostrando a foto para todos que encontravam, falando sobre e com, sim, com a foto, como se a foto fosse outra pessoa, um terceiro.

Aneta, por exemplo, uma senhora simpática e respeitada na Vila. Tirei algumas fotos dela durante um funeral Lopit e fui agradecê-la com uma cópia da foto alguns meses depois. Ela não parava de olhar a própria foto e dizia:

 

- É a Anteta! Olha só, a Aneta fuma cachimbo! Ela fuma cachimbo!

 

Além disso, não importa a quantos meses eu havia tirado a foto, no meio do campo, nos caminhos da montanha. Eles se lembravam exatamente do momento. Sempre me lembravam do lugar onde eu os havia fotografado.

 

- Foi ali, perto da casa do Fulano. Foi perto do rio.

 

E saíam mostrando a foto, dando gargalhadas e contando a história do dia em que tiveram sua imagem registrada.

Que privilégio. E tudo isso traz um tanto de outras coisas pra conversar. Cadê os Barthes?

Seja bem-vindo...!

 

Aneta - Ohilang, South Sudan, 2015